A nova era da distribuição de matérias-primas para o setor de tintas

Tecnologia, logística inteligente e personalização no atendimento podem redefinir um novo papel dos distribuidores de matérias-primas
Por Rodrigo Rezende
A cadeia de distribuição de matérias-primas químicas para o setor de tintas e revestimentos vive um momento especial de transformação. Mais do que garantir o fornecimento das commodities químicas básicas, os distribuidores vêm se posicionando como agentes estratégicos da eficiência industrial, impulsionados por tecnologia, novos modelos de negócio e maior integração com clientes e fornecedores.
A digitalização de processos, a adoção de sistemas inteligentes de rastreabilidade e o uso de plataformas que antecipam demandas e otimizam estoques são apenas alguns dos avanços que estão redesenhando o papel da distribuição nesse ecossistema.
Empresas fornecedoras de matérias-primas vêm investindo em parcerias com distribuidores que usam inteligência de dados para melhorar a previsibilidade das entregas e reduzir perdas ao longo da cadeia. Um exemplo prático disso vem com os sensores e algoritmos que monitoram o consumo dos fabricantes de tintas em tempo real e tornam possível programar reposições com mais precisão, evitando tanto o excesso quanto a escassez.
Isso gera ganhos logísticos, sustentabilidade e até vantagens comerciais, já que o cliente final passa a enxergar valor em um serviço que antes era visto como mera etapa operacional.
Nesse novo cenário, fica bem nítido, quem ganha é toda a cadeia: da indústria ao balcão, passando pelo consumidor final, que encontra mais disponibilidade, qualidade e inovação nos produtos que chegam às prateleiras.
Tecnologia como aliada
Um dos exemplos mais concretos desse movimento vem da MCassab, fornecedora de matérias-primas que tem direcionado investimentos estratégicos para modernizar sua operação logística de distribuição. Em quatro pilares principais – Torre de Operação Logística (TOL), WMS (Warehouse management system), GFE (Gestão de Fretes) e YMS (Yard management system) –, a empresa tem incorporado tecnologias que vão desde a roteirização inteligente até o controle em tempo real da movimentação de veículos nos centros de distribuição.

Helton Barbosa, Head de Operações na MCassab
“O TOL, por exemplo, identifica oportunidades de otimização de rotas e melhora o tempo de entrega, enquanto o YMS nos permite rastrear a posição dos caminhões dentro do pátio com GPS”, explica Helton Barbosa, Head de Operações do Negócio de Distribuição da MCassab.
A empresa também já colhe frutos com a gestão automatizada de fretes e o uso de leitura por QRcode e códigos de barra nos processos de recebimento e separação, promovendo ganhos em acurácia e velocidade. A personalização no atendimento ao setor de tintas é outro diferencial. Com uma estrutura voltada para misturas, embalagens especiais, fracionamento e logística just-in-time, a empresa reforça a sua atuação como parceira e não apenas fornecedora.
E a agenda sustentável também avança: testes com veículos pesados movidos a GLP e veículos elétricos já estão em curso na empresa, além de uma iniciativa prevista para 2026 com baús recicláveis feitos de garrafas PET.
Apesar dos avanços, segue no radar o desafio de equilibrar inovação e tecnologia com custos. “A grande barreira que visualizamos para a inclusão de mais tecnologia é o impacto do custo desse nível de investimento para um setor que ainda possui alta dependência de commodities e tem o combate aos custos, um driver importante e decisório no negócio”, diz Barbosa.
O head afirma também que o fator-chave para que a tecnologia traga resultados é a atuação dos profissionais da empresa. “Seguimos firme no plano de investir em inovação com propósito, mas o nosso maior patrimônio são as pessoas. A tecnologia vem para potencializar o talento humano e reforçar nossos pilares de segurança, eficiência e sustentabilidade”, conclui.
Distribuição com visão de futuro
Se a tecnologia é o motor da nova era na distribuição de matérias-primas para o setor de tintas e revestimentos, há engrenagens tão fundamentais quanto ela. Parcerias estratégicas, ampliação de portfólio e a visão antecipada de demandas completam esse modelo de gestão, garantindo que os negócios avancem com previsibilidade, inovação e resiliência.

Salvador Nascimento, Colunista na Paint Innovation e Consultor no segmento de Tintas
Na análise de Salvador Nascimento, consultor com mais de 30 anos de experiência no setor de tintas, um dos pontos mais relevantes no momento é o movimento das empresas distribuidoras em direção à diversificação e à inteligência de mercado.
De acordo com Salvador, uma das forças que tem feito a diferença é a capacidade que algumas distribuidoras têm demonstrado ao operar com milhares de produtos, mantendo parcerias internacionais robustas e relações com centenas de fornecedores homologados. “Isso garante aos fabricantes de tintas acesso a soluções mais amplas e competitivas”, afirma. Mas o especialista também aponta desafios, com a da sobretaxa sobre determinados itens importados. “Pode prejudicar a composição de custos e precisa ser acompanhada de perto”, alerta.
Com a experiência de quem transita entre distribuição, indústria e varejo, Salvador destaca que, além da tecnologia, há um movimento crescente de integração de práticas sustentáveis e economia circular – como reciclagem de resíduos e uso de fontes renováveis – e que isso tem impactos cada vez mais visíveis também na ponta da cadeia. “Tinta hoje é um produto amigável ao consumidor e ao aplicador, e há comitês ativos trabalhando para qualificar todo o setor dentro de protocolos de ESG”, explica o consultor.
A busca por antecipar tendências também entrou na agenda. O consultor destaca que muitas empresas estão investindo em análise de dados e mapeamento de comportamentos de consumo, além de participarem ativamente de eventos do setor como forma de captar sinais do mercado.
“Temos percebido, na nossa vivência no varejo, empresas de matérias-primas cada vez mais presentes buscando dados para alimentar painéis preditivos. É ali, na ponta, que podemos antever movimentos e sazonalidade, além de ter uma percepção de tendências de consumo”, ressalta Nascimento.
O consultor também destaca que o mercado de tintas no Brasil está em franca expansão. Em 2024, todos os segmentos – automotivo, repintura, industrial e imobiliário – apresentaram crescimento, e em todas as regiões do Brasil. “O setor imobiliário, que responde por 70% do volume de tintas produzidas, segue sendo o motor dessa indústria. E com o varejo ampliando pontos de venda e redesenhando seus modelos de negócio, o cenário futuro é bastante promissor”, diz.
Nada novo sob o sol?
Quando falamos de movimentos em distribuição de matérias-primas químicas para o setor de tintas, também é possível ter o olhar de “não há nada tão novo sob o sol”. Mas o que isso quer dizer? Publicações do segmento de pelo menos 10 anos atrás já apontavam como tendência, por exemplo, a importância da ampliação de portfólio. Identificar e atender às demandas também já era um ponto-chave sinalizado por profissionais do setor.
Nesse tempo, de lá para cá, o que tem surgido realmente como algo novo é a tecnologia. E mais, a oportunidade de interação entre ela e o ser humano. Ou seja, com os aprendizados recentes também no campo dos desafios – como pandemia, guerras e fatores geopolíticos e econômicos entre outros –, fica a cargo da inteligência humana buscar meios de diferenciação para tornar os seus negócios mais atrativos e competitivos.
Na distribuição de matérias-primas químicas para a indústria de tintas, a atuação dos profissionais humanos é fundamental para garantir a eficiência e a qualidade dos processos. Eles são responsáveis por interpretar variáveis de mercado, gerenciar oscilações na oferta e demanda e resolver imprevistos logísticos com rapidez.
Além disso, a proximidade com clientes e fornecedores facilita negociações eficientes e ajustes operacionais sob medida, especialmente em um setor sensível a prazos, qualidade dos insumos e regulamentações técnicas.

Luiz Cornacchioni, Presidente-executivo na Abrafati
Segundo Luiz Cornacchioni, presidente-executivo da Abrafati (Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas), é fundamental buscar a integração de cadeia produtiva e a ação humana é imprescindível. “A capacitação dos profissionais que atuam na cadeia produtiva de tintas é essencial para acompanhar a evolução tecnológica e as novas demandas”, diz. Nesse cenário, a experiência e a capacidade de articulação dos profissionais são diferenciais importantes para manter a fluidez e a competitividade das entregas.
Principais desafios e previsões
As tarifas recentemente impostas pelo governo norte-americano sobre as importações de diversos países, o também chamado “tarifaço”, certamente geram uma situação de atenção e incertezas em todo o mundo. No setor de distribuição de matérias-primas e de fabricação de tintas não é diferente.

Rubens Medrano, Presidente da Associação Brasileira dos Distribuidores de Produtos Químicos e Petroquímicos
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