Aditivos sustentáveis ganham espaço, mas ainda enfrentam barreiras

Empresas do setor de tintas e revestimentos avançam no uso de insumos de menor impacto ambiental nas suas formulações, como resposta às demandas de mercado e pressões regulatórias. Mas a adoção em larga escala ainda esbarra em custo, oferta restrita, desafios técnicos e dependência de importações.
Por Rodrigo Rezende
A sustentabilidade deixou de ser apenas um diferencial competitivo para se tornar um requisito. Não há marca que não admita isso e que deixe de ter o tema em seu radar. Além do mais, esse ponto é fundamental para a sobrevivência, tanto do mercado, quanto do próprio planeta. No setor de tintas e revestimentos, isso tem acelerado a adoção de matérias-primas menos agressivas ao meio ambiente, entre elas os ‘aditivos sustentáveis’. Mais do que uma resposta às exigências de órgãos reguladores ou aos compromissos ambientais das marcas, a substituição de insumos tradicionais por versões com menor pegada ambiental tem se mostrado uma forma concreta de tornar produtos mais limpos ao longo de seu ciclo de vida.
Esses aditivos, desenvolvidos a partir de fontes renováveis ou com rotas químicas menos impactantes, estão ganhando espaço em formulações arquitetônicas, industriais, automotivas e decorativas. Ainda assim, segundo profissionais do setor, o cenário está longe da estabilidade ou consolidação. O setor se movimenta entre a vontade de inovar e os entraves práticos que a sustentabilidade carrega.
O papel essencial dos aditivos
Toda tinta moderna é resultado de uma combinação precisa de ingredientes. E os aditivos, embora estejam presentes em pequenas quantidades na formulação, cumprem funções essenciais. São eles que controlam a secagem, evitam formação de espuma, melhoram a dispersão dos pigmentos, aumentam a durabilidade do filme seco e otimizam a aplicação.
A ausência de um bom aditivo pode comprometer a estabilidade da tinta ainda na embalagem, dificultar a aplicação ou reduzir a performance final. Por isso, qualquer mudança nesse componente, mesmo em nome da sustentabilidade, exige testes rigorosos e reformulações cuidadosas para não comprometer o desempenho do produto.
O que é de fato um aditivo sustentável?
Não há um único critério para definir um aditivo como sustentável. A maioria das iniciativas considera uma combinação de fatores, como origem renovável da matéria-prima, como óleos vegetais, açúcares ou resíduos agroindustriais; processos de fabricação menos poluentes, com menor consumo de energia, água e geração de resíduos; redução da toxicidade para o meio ambiente e seres humanos; maior biodegradabilidade, o que reduz impacto no descarte ou lavagem de equipamentos; e menor emissão de compostos orgânicos voláteis (VOCs).
Alguns produtos aliam mais de um desses fatores. Um antiespumante feito a partir de fontes vegetais, por exemplo, pode também ter menor toxicidade e reduzir a necessidade de solventes, contribuindo com múltiplos aspectos da sustentabilidade.
Por que a indústria busca esses aditivos?
A pressão pela redução da pegada ambiental de produtos químicos está vindo de vários lados. Além de consumidores mais atentos, que valorizam produtos ‘verdes’ e com certificações ambientais, há uma crescente regulação nos principais mercados do mundo.
A Europa, por exemplo, avança em legislações que restringem substâncias tóxicas e exigem maior transparência na composição de produtos. Grandes redes de varejo também têm criado políticas internas que limitam a presença de certos aditivos ou priorizam fornecedores com critérios ESG claros.
Na prática, aditivos sustentáveis podem facilitar o enquadramento em selos ambientais, como LEED, Green Seal ou EU Ecolabel. Além disso, auxiliam a abrir portas em mercados mais exigentes, reduzir riscos trabalhistas e ambientais em fábricas e aplicações, melhorar a imagem da marca perante consumidores e investidores, e reduzir impactos regulatórios futuros, com portfólios já adaptados a legislações emergentes.
Quem já está adotando
Diversas empresas do setor têm investido em linhas completas com foco em sustentabilidade. É cada vez mais comum ver produtos à base de água com baixo VOC, livres de biocidas agressivos, coalescentes de origem vegetal, antiespumantes sem silicone e espessantes baseados em biopolímeros.
Mesmo grandes marcas globais vêm reformulando produtos consagrados para versões ‘eco’ ou ‘bio-based’, com destaque em suas embalagens. Em paralelo, startups químicas e fabricantes de insumos têm desenvolvido tecnologias específicas para atender a essa nova demanda.
A estratégia costuma ser gradual A substituição ocorre primeiro em linhas premium, de maior valor agregado e com consumidores dispostos a pagar por sustentabilidade. Em seguida, parte dessas tecnologias se difunde para linhas intermediárias, à medida que o custo se torna mais competitivo.
Caminho promissor, mas com obstáculos
Apesar do avanço, a adoção ampla dos aditivos sustentáveis ainda enfrenta desafios importantes. Um deles, segundo especialistas do setor, é o custo mais elevado. Muitos insumos sustentáveis ainda são mais caros que os convencionais, tanto pela complexidade produtiva quanto pela escala reduzida.
Também se relata uma menor disponibilidade local. A maior parte dos aditivos com pegada verde ainda é importada, o que torna o Brasil vulnerável a oscilações cambiais e barreiras comerciais, além entraves mais impactantes, como o tarifaço dos Estados Unidos e as suas consequências – ainda indefinidas –, que tem gerado preocupações a todos os setores.
Desempenho técnico nem sempre equivalente. Esse é outro ponto de atenção. Substituições exigem reformulação, adaptação e novos testes de performance, o que demanda tempo e investimento. Outra questão é a da logística e confiabilidade, afinal é preciso garantir fornecimento contínuo, com padrão de qualidade e volume adequado. E isso ainda pode ser considerado é um desafio, de acordo com profissionais do setor, principalmente com fornecedores estrangeiros.
Dilema da cadeia
Hoje, uma parcela significativa dos aditivos sustentáveis disponíveis no mercado brasileiro é importada, principalmente da Europa, EUA e Ásia. Isso implica não apenas em custos mais altos, mas em riscos maiores: tarifas impostas por governos, alta do dólar, atrasos logísticos e incertezas geopolíticas podem comprometer o abastecimento.
O Brasil já conta com empresas que desenvolvem ou distribuem aditivos mais sustentáveis com base nacional, mas a escala ainda é limitada. Incentivos à produção local, parcerias entre universidades e indústria, e políticas públicas de estímulo à química verde podem acelerar esse movimento, reduzindo a dependência de fornecedores externos.
Percepção do consumidor
Em alguns casos, o consumidor percebe sim. Tintas com aditivos sustentáveis podem ter menos odor, menor emissão de compostos voláteis, secagem mais suave e até um desempenho superior em determinadas situações. Mas, na maioria das vezes, os benefícios não são visíveis, o que exige uma comunicação clara e assertiva por parte das marcas.
Por isso, é fundamental que a sustentabilidade não se limite à mudança de insumo, mas venha acompanhada de transparência, certificações e narrativas bem construídas. Quando bem comunicado, esse diferencial pode fazer a diferença na decisão de compra. Tanto de consumidores quanto de especificadores técnicos, arquitetos e engenheiros.
Inovação brasileira
A presença da brasileira Polystell na edição 2025 da European Coatings Show, em Nuremberg, no primeiro semestre, reforçou o protagonismo das empresas nacionais na corrida por soluções mais sustentáveis no setor de tintas e revestimentos. Com um portfólio focado no desenvolvimento de aditivos de alta performance e menor impacto ambiental, a empresa tem investido de forma consistente em pesquisa e tecnologia para entregar alternativas que atendam às crescentes exigências de sustentabilidade sem abrir mão do desempenho técnico.
Na feira, uma das mais importantes do mundo para o setor, a Polystell apresentou inovações voltadas à redução da pegada ambiental nas formulações, com destaque para aditivos desenvolvidos com foco em eficiência e conformidade com padrões ambientais internacionais.
O esforço em P&D mira não apenas a substituição de insumos tradicionais, mas também a criação de novas rotas químicas que transformem desafios ambientais em oportunidades reais de crescimento sustentável. Com atuação global e estrutura voltada para inovação contínua, a empresa segue como um exemplo de como o Brasil pode contribuir de forma relevante para o futuro mais verde da indústria de tintas.
A empresa oferece, por exemplo, um pigmento ultrafino funcionalizado com íons metálicos, desenvolvido para aplicações em tintas, esmaltes e vernizes à base de água, solvente ou universal. Com alta tecnologia e foco em sustentabilidade, esse aditivo entrega opacidade, nivelamento e economia para formulações industriais, segundo a fornecedora.
Entre os principais benefícios, estão: substituição parcial do dióxido de titânio, com dosagens entre 10% e 20%, sem comprometer o poder de cobertura; redução da porosidade do filme seco, promovendo acabamento mais uniforme; alta resistência ao amarelamento e oxidação, graças à sua estrutura cristalina; e melhor empacotamento das partículas, otimizando o desempenho da formulação.
As empresas de matérias-primas oferecem ingredientes e também destacam processos internos que são aliados da sustentabilidade. A Brancotex ilustra bem isso. A empresa oferece aditivos sustentáveis para tintas com foco em qualidade, desempenho e responsabilidade ambiental. Busca minimizar o uso de solventes agressivos e oferece produtos à base de água e isentos de solventes, atendendo aos padrões de qualidade ISO 9001:2015.
Além disso, a Brancotex ressalta que desenvolve resinas e aditivos para diversos setores, incluindo tintas, buscando otimizar processos e garantir resultados consistentes e eficientes.
A equação da sustentabilidade
Avançar na adoção de aditivos sustentáveis é resolver uma equação complexa: preservar performance, controlar custos, garantir escala e entregar valor ambiental real. Não se trata de uma mudança cosmética, mas de um movimento estrutural que está moldando o futuro da indústria de tintas.
À medida que o desenvolvimento de novas rotas químicas se acelera e o custo de tecnologias verdes tende a cair, o setor deve viver uma transição mais intensa nos próximos anos. Quem se antecipar e estruturar sua cadeia com visão sustentável, terá mais chances de liderar esse novo ciclo.
Nesse contexto, inovação e sustentabilidade muitas vezes caminham lado a lado. E, mesmo quando não envolvem diretamente matéria-prima de origem renovável, soluções com apelo funcional, como proteção à saúde e ao bem-estar, também têm se tornado cada vez mais estratégicas nas formulações.




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