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Coalescentes e solventes verdes: a nova frente da indústria de tintas - Know More. Create More.


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Coalescentes e solventes verdes: a nova frente da indústria de tintas

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Fabricantes de insumos e de tinta pronta avançam entre exigências regulatórias e metas de sustentabilidade

Por Rodrigo Rezende

A busca por coalescentes e solventes de origem renovável deixou de ser um diferencial de nicho para se tornar um dos principais campos de disputa tecnológica entre fabricantes de matérias-primas e produtores de tintas. De janeiro a agosto de 2026, uma sequência de lançamentos, premiações setoriais e mudanças regulatórias no Brasil e no exterior reforçou um movimento que já vinha se desenhando havia alguns anos: reduzir a dependência de insumos petroquímicos nas formulações à base de água sem abrir mão de propriedades como formação de filme, resistência à lavagem, durabilidade e baixo odor. 

O pano de fundo é conhecido pelos profissionais da cadeia de tintas e revestimentos. Compostos orgânicos voláteis (VOC) seguem no centro das exigências ambientais e de saúde ocupacional em praticamente todos os mercados relevantes, ao mesmo tempo em que compradores corporativos, especificadores de obras e consumidores finais pressionam por produtos com menor pegada de carbono.  

É nesse cenário que coalescentes, responsáveis por permitir a coalescência das partículas de látex durante a secagem e formar um filme contínuo, e solventes de uso auxiliar em diluição, limpeza e formulação têm sido reformulados a partir de óleos vegetais, ésteres biodegradáveis e outras rotas renováveis, num esforço para entregar desempenho equivalente ou superior ao dos derivados de petróleo historicamente dominantes no setor. 

A Cargill destaca os agentes coalescentes Cargill™ Oxi-Cure™, incluindo as versões Oxi-Cure™ 2200 e Oxi-Cure™ 3000, como soluções alinhadas ao avanço da inovação sustentável no setor de revestimentos. Desenvolvidos a partir de matérias-primas predominantemente renováveis e de origem vegetal, os produtos representam uma alternativa aos coalescentes tradicionais à base de petróleo. 

De acordo com Ashley Haag, Industry Manager da Cargill, os agentes Oxi-Cure™ foram desenvolvidos para oferecer desempenho equivalente ao das opções convencionais, ao mesmo tempo em que atendem a desafios-chave de sustentabilidade em formulações de tintas. Segundo ela, por serem de base biológica, contribuem para reduzir a dependência de combustíveis fósseis e podem favorecer a sustentabilidade por meio da redução das emissões de VOC, da melhora da qualidade do ar e de um perfil toxicológico mais favorável em comparação com alternativas petroquímicas.  

Além disso, também podem contribuir para o aumento da durabilidade dos revestimentos, reduzindo a necessidade de repintura. “Ao auxiliarem na formação de filme em sistemas à base de água, esses produtos promovem a coalescência das partículas de polímero de látex durante a secagem, garantindo a formação de um filme contínuo e uniforme, essencial para propriedades como adesão, aparência, proteção e desempenho geral”, explica Haag. 

O desenvolvimento dessas soluções foi conduzido pela área de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) da unidade de negócios Bioindustrial da Cargill, em colaboração com fabricantes de revestimentos. De acordo com Haag, esse modelo centrado no cliente permite atender simultaneamente aos requisitos de desempenho técnico e às crescentes demandas regulatórias do mercado. 

Para formuladores, os agentes Oxi-Cure™ oferecem diversos benefícios, incluindo potencial de redução de VOC, aumento do conteúdo de origem renovável e maior eficiência de dosagem, dependendo do sistema. Sua compatibilidade com uma ampla gama de resinas também pode simplificar formulações ou até reduzir a necessidade de reformulações adicionais.  

Do ponto de vista do consumidor final, os produtos mantêm alto desempenho dos revestimentos em termos de durabilidade, aparência e proteção, ao mesmo tempo em que proporcionam benefícios como a redução das emissões de VOC durante aplicação e secagem. Testes realizados por terceiros indicam desempenho comparável ou superior ao de coalescentes convencionais, especialmente em aspectos como formação de filme e desempenho global do revestimento. 

Ainda segundo a executiva, os agentes coalescentes Oxi-Cure™ enfrentam um dos principais desafios da indústria: equilibrar sustentabilidade e desempenho. À medida que aumentam as exigências por níveis mais baixos de VOC e maior conteúdo renovável, torna-se mais complexo manter a performance com soluções tradicionais, destaca Haag. Nesse contexto, os coalescentes da Cargill contribuem para superar esse desafio, apoiando metas de sustentabilidade sem comprometer propriedades críticas dos revestimentos, em linha com a crescente adoção de matérias-primas renováveis de alto desempenho. 

O movimento da Cargill não é isolado. Em maio, a Indovinya, divisão de especialidades químicas da Indorama Ventures, que incorporou a antiga Oxiteno, venceu as categorias Coalescentes e Solventes Oxigenados na 30ª edição do Prêmio Paint & Pintura Nacional, uma das principais premiações do setor no Brasil, promovida pela Agnelo Editora e Eventos. O reconhecimento consolida uma trajetória construída em torno da linha Ultrafilm, que reúne coalescentes de diferentes perfis técnicos voltados a tintas decorativas.  

Um dos principais produtos da linha é o Ultrafilm 5000, lançado originalmente em 2019 e mantido desde então como carro-chefe da categoria: molécula derivada de fontes renováveis que dispensa VOC e foi projetada, segundo a companhia, para eliminar os domínios de partículas de látex e formar um filme completamente coalescido, reduzindo em até 30% o teor necessário de coalescente em comparação com o monoisobutirato do 2,2,4-trimetil-1,3-pentanodiol, molécula que liderou o mercado global por cerca de cinco décadas.  

A companhia também levou ao Abrafati Show 2025 o Ultrafilm 2770, coalescente de baixo VOC voltado a sistemas à base de água com ampla compatibilidade entre diferentes tecnologias de polimerização em emulsão. Em relatório de sustentabilidade divulgado em julho de 2025, a empresa havia informado que pretendia destinar metade dos lançamentos de 2025 a especialidades químicas classificadas como sustentáveis, após atingir a marca de 15% da receita ligada a esse tipo de solução no ano anterior. 

No campo das resinas e insumos poliméricos que também influenciam a necessidade de coalescentes – quanto menor a temperatura mínima de formação de filme de uma dispersão aquosa, menor a dose de coalescente exigida –, a Basf ampliou em 2026 o uso de eletricidade renovável em sua produção de acrilatos. Em parceria com a Avery Dennison, a companhia lançou o butil acrilato RE e o 2-etilexil acrilato RE, monômeros produzidos com eletricidade de fontes renováveis e quimicamente equivalentes às versões convencionais, o que permite sua adoção direta em dispersões poliméricas para tintas e adesivos sem necessidade de reformulação.  

Ainda no campo automotivo, a Basf Coatings expandiu o fornecimento de revestimentos sob o conceito de balanço de biomassa para a BMW, com o uso do e-coat CathoGuard 800 ReSource nas fábricas de Leipzig, na Alemanha, e Rosslyn, na África do Sul, além do verniz fosco iGloss ReSource em unidades europeias. Soluções que, segundo a montadora e a fornecedora, permitem reduzir em torno de 40% as emissões de CO2 associadas a cada camada de revestimento aplicada. 

Em paralelo, a divisão de coatings da Basf colocou em operação, no início de 2026, uma ferramenta digital para cálculo da pegada de carbono de seu portfólio, reunindo dados de mais de 25 mil matérias-primas e de mais de 30 unidades produtivas no mundo, com o objetivo declarado de reduzir em 40% as emissões próprias até 2030 em relação à base de 2018. 

Fornecedores especializados em resinas para tintas também têm dedicado parte relevante de seus portfólios a coalescentes de base biológica. A Arkema, por exemplo, mantém uma tecnologia de coalescente zero VOC derivado de fontes renováveis para uso em revestimentos arquitetônicos e industriais, apresentada como capaz de substituir, total ou parcialmente, solventes convencionais em formulações industriais sem perda de propriedades como aderência ao metal, resistência a impacto e brilho.  

A companhia também classifica formalmente parte de seu portfólio em categorias de sustentabilidade – produtos de baixo teor aromático, baixo VOC e baixíssimo VOC, além de resinas de baixa temperatura mínima de formação de filme, que reduzem a necessidade de coalescente na formulação final –, um movimento que reflete a tentativa do setor de padronizar critérios técnicos para o que hoje é frequentemente chamado, de forma genérica, de “química verde”. 

Produtos finais 

Do lado dos fabricantes de produto acabado, o período recente também trouxe movimentos concretos, ainda que parte deles tenha ocorrido ao longo de 2025. A Sherwin-Williams lançou em abril de 2026 a linha Emerald Symmetry, apresentada pela companhia como sua tinta mais premium com equilíbrio entre desempenho e sustentabilidade: a formulação é zero VOC e tem no mínimo 22% de conteúdo de carbono de origem vegetal, além de certificações como Greenguard Gold, USDA Certified Biobased Product e qualificação Leed v5. 

Meses antes, em novembro de 2025, a fabricante já havia levado à China International Import Expo, em Xangai, um portfólio voltado à demanda crescente por baixo VOC em mercados industriais, reunindo soluções à base de água, em pó, de alto teor de sólidos e de base biológica para setores como energia, transporte e manufatura.  

A AkzoNobel, por sua vez, anunciou em maio de 2025 uma parceria com a Basf para reduzir a pegada de carbono de suas tintas de maior volume, incorporando insumos certificados pelo método de balanço de biomassa (BMB) da Basf à linha Dulux Easycare, com lançamento previsto para o Reino Unido; a companhia também está buscando a certificação REDcert para suas unidades europeias, de forma a viabilizar o uso contínuo de materiais com balanço de massa. Em setembro de 2025, a AkzoNobel ampliou essa frente para o segmento de tintas em pó, em colaboração conjunta com a Basf e a Arkema, no desenvolvimento de revestimentos arquitetônicos em pó com menor pegada de carbono a partir de matérias-primas bio-atribuídas via balanço de massa.  

Já a PPG anunciou em dezembro de 2025 que suas unidades de Tintas Arquitetônicas em Amsterdã, na Holanda, e em Søborg, na Dinamarca, obtiveram a certificação REDCert, que comprova o uso de matérias-primas sustentáveis por meio de cadeia de custódia certificada com base no método de balanço de massa. As duas unidades fabricam tintas e vernizes das marcas Sigma Coatings, Histor, Dyrup, Gori e Bondex, e a companhia informou que a certificação reforça o compromisso com fornecimento responsável e com soluções “sustainably advantaged”, termo interno usado pela PPG para produtos que contribuem para redução de emissões, eficiência energética, uso de matérias-primas renováveis ou maior durabilidade – categoria que, segundo relatório de sustentabilidade divulgado pela companhia em 2026, respondeu por 43% das vendas do grupo em 2025. 

Regulatório 

Do lado regulatório, o primeiro semestre de 2026 trouxe uma mudança relevante no Brasil, ainda que não diretamente ligada a coalescentes ou solventes. Em 29 de junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 15.441/2026, que reduz de 600 para 90 partes por milhão o limite máximo de chumbo permitido em tintas e materiais similares de revestimento comercializados no país, incluindo primers e seladores.  

A norma, fruto de agenda construída pela Abrafati junto ao poder público desde 2016 em parceria com a Global Alliance to Eliminate Lead Paint, da Organização Mundial da Saúde e do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, passa a valer 12 meses após a publicação e amplia a abrangência da regra anterior, de 2008, que se restringia a tintas imobiliárias, infantis e escolares. Para o presidente-executivo da Abrafati, Luiz Cornacchioni, a evolução tecnológica da indústria ao longo dos últimos anos permitiu substituir matérias-primas com chumbo – sobretudo pigmentos e secantes – sem comprometer qualidade, durabilidade e desempenho dos produtos.  

Embora o tema não trate diretamente de coalescentes ou solventes, a lei do chumbo é sintomática de um ambiente regulatório brasileiro cada vez mais próximo dos padrões adotados por Estados Unidos, China e União Europeia, o que tende a se repetir em discussões futuras sobre outras substâncias usadas na cadeia de tintas. 

Na União Europeia, o tema segue avançando por outra via, a atualização do Regulamento REACH. Em junho de 2025, a Comissão Europeia adotou o Regulamento (UE) 2025/1090, que altera o Anexo XVII do REACH para restringir dois solventes apróticos dipolares amplamente usados na indústria química – a N,N-dimetilacetamida (DMAC) e a 1-etilpirrolidin-2-ona (NEP) –, classificados como tóxicos para a reprodução. A norma entrou em vigor em 23 de junho de 2025, mas a restrição efetiva só passa a valer a partir de 23 de dezembro de 2026, quando as duas substâncias não poderão mais ser colocadas no mercado ou usadas em concentrações iguais ou superiores a 0,3% em peso, salvo se fabricantes e usuários a jusante comprovarem, em relatórios de segurança química e fichas de dados de segurança, níveis de exposição ocupacional abaixo dos limites derivados definidos pela Comissão – medida que se soma à restrição já vigente sobre a N-metil-2-pirrolidona (NMP), solvente historicamente empregado em removedores de tinta e em algumas formulações industriais.  

Paralelamente, a proposta legislativa conhecida como “Chemicals Omnibus”, em debate no Parlamento Europeu ao longo de 2026, busca simplificar parte da complexidade regulatória do bloco sobre produtos químicos – tema que já levou a Associação Portuguesa de Tintas a manifestar publicamente preocupação com os rumos da negociação – e tem sido acompanhado de perto também pelo Conselho Europeu da Indústria de Tintas, Tintas de Impressão e Cores de Artista (Cepe), que apresentou uma iniciativa própria de simplificação regulatória voltada a preservar a competitividade da indústria europeia sem abrir mão da segurança química. 

No Brasil, a Abrafati mantém desde 2021 o Programa Setorial de Sustentabilidade, desenvolvido em conjunto com o Instituto Akatu, que avalia anualmente, de forma voluntária e autodeclaratória, o desempenho de fabricantes associados em temas como governança, capital humano, capital social e meio ambiente.  

Segundo a entidade, o setor brasileiro de tintas – responsável por mais de 80% da produção nacional, com faturamento próximo de R$ 40 bilhões e produção anual de quase 2 bilhões de litros – estabeleceu a meta de que todas as empresas associadas atinjam o nível avançado no sistema de avaliação até 2030. A entidade também tem reforçado a pauta de VOC como um dos pilares históricos da transição do setor.  

Hoje, quase 90% das tintas imobiliárias vendidas no país são à base de água, o que já reduziu de forma expressiva o uso de solventes orgânicos nas formulações em comparação com décadas anteriores, ampliando o espaço de disputa técnica justamente na etapa seguinte – a substituição dos coalescentes e demais aditivos residualmente dependentes de insumos fósseis. 

O apelo comercial da sustentabilidade, porém, convive com desafios técnicos e de verificação que a imprensa especializada e a própria indústria têm debatido. Relatórios de consultorias que acompanham o mercado global de solventes verdes apontam crescimento consistente da categoria nos próximos anos, impulsionado por mandatos regulatórios e inovação tecnológica, com destaque para solventes à base de álcoois, ésteres de ácidos graxos e derivados de biomassa em aplicações que vão de tintas e revestimentos a produtos de limpeza e fármacos, mas também chamam atenção para a ausência de um padrão único e amplamente aceito sobre o que qualifica um produto como “verde”, o que abre espaço para variações relevantes entre autodeclarações de diferentes fornecedores.  

Selos como o Green Seal, atribuído a coalescentes de baixo VOC e baixo odor de fabricantes como a Eastman, e certificações como o EcoVadis, obtido em nível Platinum pela Indovinya, funcionam hoje como uma das poucas referências externas capazes de validar, de forma comparável, esse tipo de alegação. 

Para os profissionais que atuam ao longo da cadeia de tintas e revestimentos, da indústria de matéria-prima aos fabricantes de produto acabado, passando por distribuição, logística e varejo, o cenário observado entre 2025 e o primeiro semestre de 2026 sugere que a discussão sobre coalescentes e solventes verdes deixou de ser apenas uma resposta pontual a exigências de VOC e passou a integrar decisões estratégicas de portfólio, investimento em P&D e posicionamento competitivo.  

É significativo que o movimento não esteja restrito aos fornecedores de matéria-prima; fabricantes de produto acabado como Sherwin-Williams, AkzoNobel e PPG têm investido em certificações de cadeia de custódia, parcerias de balanço de massa e lançamentos com conteúdo renovável comprovado por selos independentes, sinalizando que a sustentabilidade em coalescentes e solventes deixou de ser apenas argumento de venda de insumo e passou a compor, de forma explícita, o discurso comercial das próprias marcas de tinta junto ao consumidor e ao especificador.  

A convergência entre pressão regulatória, movida pela atualização de normas no Brasil e na Europa, e demanda de mercado por produtos com desempenho comprovado tende a manter esse tema no centro da pauta técnica do setor pelos próximos anos, com efeitos que devem se refletir tanto em novos lançamentos quanto em ajustes de formulação já em curso nas linhas de produção de tintas arquitetônicas, industriais e automotivas. 

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