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Tecnologia em emulsões: eficiência e baixo impacto ambiental avançam no setor

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Novos desenvolvimentos de fornecedores globais de matérias-primas e fabricantes de tintas mostram que a equação entre redução de VOCs e alta performance está sendo resolvida com profundidade inédita em 2026

Por Rodrigo Rezende

A indústria global de tintas e revestimentos está passando por uma rápida transformação tecnológica nas emulsões. A substituição de sistemas à base de solvente por formulações aquosas, antes vista como um compromisso técnico com perda de desempenho, agora é considerada uma fronteira de inovação. Em 2026, lançamentos e estratégias de grandes fornecedores de matérias-primas e fabricantes evidenciam que a redução de compostos orgânicos voláteis (VOCs) aliada ao aumento de desempenho está sendo alcançada com mais consistência e profundidade técnica do que nunca.

O cenário regulatório e de mercado explica esse ritmo. Segundo dados recentes da Mordor Intelligence, o mercado global de revestimentos à base de água está estimado em US$ 67,84 bilhões em 2026, com previsão de atingir US$ 88,51 bilhões até 2031, crescendo a uma taxa anual de 5,47%.

Essa demanda robusta, segundo a consultoria, se apoia em três pilares: o endurecimento dos limites regulatórios de VOC em várias regiões, grandes programas de infraestrutura que exigem revestimentos de alto desempenho e a aceleração da conversão por fabricantes finais – da construção ao setor automotivo – para sistemas de baixa emissão. É nesse contexto que os lançamentos recentes ganham relevância estratégica.

Nova geração de aditivos 

Um dos lançamentos mais importantes do primeiro semestre de 2026 no segmento de matérias-primas para tintas foi o Alcosperse OTA-100, anunciado pela Nouryon, empresa global de especialidades químicas sediada na Holanda. Trata-se de um novo aditivo polimérico que auxilia fabricantes de tintas a desenvolver revestimentos arquitetônicos à base de água mais fáceis de aplicar, com baixo odor e menor emissão de compostos orgânicos voláteis.

O Alcosperse OTA-100, segundo a empresa explica, é um copolímero de acrilato multifuncional indicado para tintas de parede à base de água, tintas texturizadas e revestimentos de telhado. Sua principal função é estender o tempo em aberto da tinta, aumentando o período em que ela permanece trabalhável no substrato, o que facilita a aplicação e melhora a qualidade do acabamento. O diferencial para os formuladores, de acordo com a empresa, é que ele permite reduzir ou eliminar o uso de glicol.

Glicóis têm sido usados há décadas em formulações aquosas como coalescentes e agentes de aberto, desempenhando papel técnico importante. No entanto, apresentam dois problemas crescentes: contribuem para os níveis de VOC da formulação e conferem odor característico às tintas recém-aplicadas, pouco aceito por consumidores residenciais e profissionais que atuam em ambientes fechados. Ao substituir parcial ou totalmente o glicol, os formuladores reduzem o conteúdo total de VOC e o odor das tintas arquitetônicas sem necessidade de reformulação completa.

Testes com clientes confirmam que a substituição não compromete a performance. O aditivo teve impacto mínimo na durabilidade, resistência à esfregação, manchas e água em diversas tintas à base de água. Disponível nas Américas e Europa, pode ser incorporado a muitas formulações existentes com alterações mínimas no processo produtivo, o que representa uma vantagem estratégica, pois mudanças na formulação envolvem custos e riscos. A compatibilidade com processos atuais acelera a adoção.

Em nota, Joe Ferrara, vice-presidente de tintas e revestimentos da Nouryon, afirmou que o produto oferece “um caminho prático para que produtores avancem seus portfólios de baixo e zero VOC sem sacrificar qualidade”. Essa declaração resume o argumento central que o segmento de matérias-primas precisa sustentar com evidências técnicas junto aos fabricantes: a transição para formulações mais limpas não reduz a competitividade.

Primer aquoso que cura em dois minutos 

No segmento de revestimentos industriais, outro lançamento de 2026 chama atenção pela maturidade técnica que demonstra e pela barreira que ajuda a demolir. Em março, a PPG Industries anunciou o lançamento dos PPG Aquacron Waterborne Shop Primers (WSP), revestimentos projetados para componentes de aço estrutural que combinam cura rápida, acabamento mais liso e baixos níveis de compostos orgânicos voláteis.

O desempenho de cura desse sistema representa um salto considerável em relação ao que o mercado havia estabelecido como padrão para primers aquosos industriais. Primers aquosos tradicionais requerem entre 12 e 24 horas para curar completamente e são suscetíveis a defeitos de superfície – duas limitações que historicamente restringiram sua adoção em linhas de produção de alto volume. Os primers Aquacron WSP curam em aproximadamente dois minutos sob aquecimento padrão, o que abre uma perspectiva concreta de aumento de throughput e de redução de espaço físico necessário para secagem e cura antes do envio dos componentes.

Desenvolvido ao longo de quase dois anos de pesquisa e desenvolvimento, segundo informações do site técnico da própria PPG, o sistema foi projetado para operar com estabilidade em diferentes condições climáticas. Um diferencial relevante para fabricantes com plantas ou clientes em regiões com variações significativas de temperatura e umidade.

Segundo Brian Smith, gerente de negócios para revestimentos líquidos na divisão de revestimentos industriais da PPG, “desenvolver uma formulação com VOC mais baixo, secagem mais rápida, acabamento mais liso e adaptável a diferentes condições ambientais é uma conquista de referência em primers aquosos”.

As emissões de VOC dos primers Aquacron WSP são comparáveis às encontradas em tintas residenciais de padrão convencional, o que posiciona o produto em conformidade com regulamentações de emissões cada vez mais rigorosas para o setor industrial. E ao eliminar a necessidade de primers específicos para cada clima, o sistema também traz um ganho logístico concreto: simplifica a especificação e o abastecimento para fabricantes que trabalham com linhas de produção distribuídas geograficamente ou que fornecem para mercados com condições ambientais distintas.

A química das emulsões VAE 

A química das emulsões de acetato de vinila e etileno (VAE) é fundamental para a produção industrial de tintas de baixo impacto ambiental. A Celanese, conforme divulgado pela própria empresa, foi pioneira nesse segmento, desenvolvendo a primeira tecnologia de ligante sem solvente para tintas com baixo VOC. Sua linha EcoVAE é formulada para equilibrar desempenho técnico com rigorosos requisitos ambientais, incluindo odor reduzido e ausência de alquil fenol etoxilatos (APE), substâncias preocupantes quanto à toxicidade ambiental.

O principal diferencial técnico das emulsões VAE é a capacidade de formar filme em baixas temperaturas sem a necessidade de coalescentes adicionais. Em emulsões acrílicas convencionais, os coalescentes – que auxiliam na formação do filme em temperaturas mais baixas – são fontes significativas de VOC. A tecnologia VAE elimina essa dependência sem comprometer a qualidade do filme, o que mantém esse segmento ativo em desenvolvimento e competição entre fornecedores globais.

A Wacker Chemie é outro participante relevante nesse mercado. A empresa lançou uma linha reformulada de emulsões VAE que opera sem formaldeído adicionado e apresenta desempenho ambiental significativamente melhor em relação à geração anterior, focada em materiais de construção sustentáveis. A adoção dessa tecnologia em mercados europeus, onde a regulação é mais rigorosa, indica que ela já superou a fase de prova de conceito e está em escala comercial.

Novos agentes de cura epóxi 

A Evonik ampliou o seu portfólio de baixa emissão neste ano, focando no segmento de revestimentos protetivos e marinhos. Em abril, lançou no seu site o Ancamine 2873, um agente de cura epóxi de ultra-baixa emissão que permite cura rápida mesmo em temperaturas de até 5°C, mantendo alto teor de sólidos e excelente proteção anticorrosiva.

O Ancamine 2873, parte da família ULE (ultra-low emission), foi apresentado no American Coatings Show 2026, em Indianapolis. Segundo a empresa, o produto facilita a aplicação por spray, forma filme limpo e desenvolve propriedades rapidamente em condições frias e úmidas, ampliando a janela operacional para manutenção e aplicação em ambientes desafiadores, como estruturas offshore e infraestrutura marítima.

Em abril, a Evonik também lançou o Ancamine 2875, destinado a barreiras contra vapor d’água em pisos industriais. Este produto mantém o perfil de ultra-baixa emissão e elimina o uso de aceleradores de alquilfenol, que apresentam questões de segurança. Esses lançamentos mostram avanços na redução de VOC em sistemas epóxi de alto desempenho, um segmento tradicionalmente resistente a formulações de baixa emissão devido às rigorosas exigências técnicas de aplicações industriais e marinhas.

Emulsão acrílica com carbono de base biológica 

No American Coatings Show em Indianapolis, maio de 2026, a Dow destacou o Rhoplex RN-128, uma emulsão acrílica 100% para tintas interiores arquitetônicas com cerca de 27% de carbono de origem vegetal. Disponível no portfólio da empresa e detalhado em sua página técnica, o produto exemplifica a estratégia da Dow de reduzir a dependência de matérias-primas fósseis sem comprometer o desempenho do binder.

Na linha de aditivos, a Dow apresentou uma solução que estende o tempo em aberto de revestimentos sem aumentar o VOC da formulação. Um desafio comum em sistemas aquosos, onde maior trabalhabilidade geralmente eleva compostos voláteis. O aditivo melhora o flow e leveling, mantém boa resistência ao sagging e tem impacto mínimo na remoção de manchas e resistência à esfregação.

Essas iniciativas da Dow refletem uma tendência do setor: a bio-atribuição em emulsões deixa de ser um diferencial opcional e passa a atender às demandas por redução da pegada de carbono feitas por construtoras, certificadoras e compradores corporativos com metas ESG definidas.

Estratégia de capilaridade em mercados emergentes 

Por trás das emulsões e produtos acabados, há uma cadeia de dispersões poliméricas que também passa por transformações logísticas e estratégicas. Em dezembro de 2025, com início em 1º de janeiro de 2026, a Basf firmou uma parceria de distribuição com a Oqema, uma das maiores distribuidoras de especialidades químicas da Europa, para dispersões poliméricas destinadas a revestimentos de construção e arquitetônicos, além de aditivos para tintas, em 14 países da Europa Central e Oriental.

O anúncio, divulgado no site oficial da Basf revela o direcionamento estratégico da empresa. Em vez de centralizar, ampliar o alcance por meio de parceiros regionais com capacidade técnica e logística local, mantendo o desenvolvimento de produto e a sustentabilidade como foco principal. O suporte técnico próximo e a formulação adaptada às condições locais são essenciais para o desenvolvimento de clientes em mercados de tintas aquosas. Uma rede de distribuição capilar com laboratórios de aplicação oferece essa eficiência melhor que estruturas centralizadas.

Segundo Robert Heger, vice-presidente de Dispersões Poliméricas para Revestimentos Arquitetônicos e Construção EMEA da Basf, a parceria fortalece a capacidade da empresa de atender às necessidades em evolução dos clientes, focando em soluções de qualidade, sustentáveis e personalizadas para os mercados da região.

O cenário regulatório global 

A compreensão do contexto regulatório é indispensável para avaliar o ritmo de adoção das novas tecnologias de emulsão. A Diretiva Deco de Tintas da União Europeia (2004/42/EC), reforçada pelos regulamentos REACH, harmonizou limites de VOC em todos os estados-membros e acelerou a adoção de revestimentos à base de água bem antes de outras regiões. Na Califórnia, estado americano que historicamente lidera em rigor ambiental, a Regra 1113 do SCAQMD limita a maioria dos revestimentos arquitetônicos a menos de 50 g/L de VOC. Na China, o Plano de Ação Céu Azul resultou em padrões nacionais que cortaram os limites de VOC para tintas interiores de 100 g/L para 50 g/L, com imposto de consumo de 4% sobre produtos que ultrapassam 420 g/L.

Um novo prazo regulatório europeu merece atenção especial do setor: em 6 de agosto de 2026, entram em vigor na União Europeia os novos limites de emissão de formaldeído derivados do Regulamento (EU) 2023/1464, parte do arcabouço REACH. Os limites estabelecidos são 0,062 mg/m³ para móveis e artigos de madeira, e 0,080 mg/m³ para os demais artigos. Essa mudança não afeta diretamente tintas decorativas líquidas aquosas – que têm pouco ou nenhum formaldeído livre – mas impacta fortemente sistemas de cura ácida e formulações que utilizam agentes liberadores de formaldeído, pressionando mais uma parcela da indústria em direção a sistemas de baixa emissão como as emulsões aquosas modernas.

Um estudo publicado em abril de 2026 no periódico Environmental Science: Atmospheres (Royal Society of Chemistry), que analisou as emissões de VOC de tintas decorativas no Reino Unido entre 1990 e 2024, registrou que a implementação da Diretiva Deco resultou em uma queda de aproximadamente 60% nas emissões per capita de VOC de tintas no país entre 2004 e 2019, passando de 0,532 kg por pessoa por ano para 0,210 kg por pessoa por ano. O dado é significativo porque demonstra, com evidência empírica de longo prazo, que a regulação funciona como indutor real de inovação e reformulação – e não apenas como custo de conformidade.

No Brasil, a situação segue sendo de transição. O país ainda não conta com norma federal que regulamente de forma obrigatória os níveis de VOC em tintas decorativas. A Abrafati coordena o Programa Coatings Care, alinhado às diretrizes internacionais do IPPIC, e o trabalho técnico para estabelecer parâmetros consistentes com a metodologia europeia – incluindo a definição de VOC pela temperatura de ebulição de 250°C, mesma base da Diretiva Deco – já avançou dentro da entidade. Mas sem obrigatoriedade regulatória formal, o incentivo para que pequenos e médios fabricantes invistam em formulações de baixo VOC continua sendo majoritariamente puxado por demanda de grandes especificadores, certificações voluntárias e, crescentemente, pela pressão de clientes corporativos com compromissos ESG formalizados em relatórios públicos.

Vetores técnicos que moldam o próximo ciclo 

Olhando para o conjunto dos movimentos de 2026, alguns vetores emergem com clareza para o próximo ciclo de desenvolvimento em emulsões.

O primeiro é a multifuncionalidade dos aditivos. Produtos como o Alcosperse OTA-100 da Nouryon não resolvem apenas um problema – atacam simultaneamente VOC, odor e aplicabilidade, reduzindo a quantidade de componentes na formulação e o risco técnico da transição. A tendência é que essa multifuncionalidade ganhe cada vez mais espaço, pois formuladores buscam simplificação sem perda de performance.

O segundo vetor é a compatibilidade retroativa com processos existentes. Com pressão crescente por resultados em prazos curtos, fabricantes de tintas não têm apetite para reformulações radicais. Matérias-primas que se encaixam em formulações existentes com ajustes mínimos têm vantagem competitiva clara sobre aquelas que exigem redesenho completo da linha.

O terceiro é a convergência entre performance industrial e sustentabilidade, bem demonstrada pelo lançamento da PPG. A percepção de que sistemas aquosos são adequados apenas para aplicações decorativas continua sendo desconstruída por produtos como o Aquacron WSP e pelos novos agentes de cura da Evonik, que atendem exigências técnicas rigorosas de ambientes industriais e marinhos enquanto entregam emissões reduzidas.

O quarto vetor – talvez o mais relevante em médio prazo – é a bio-atribuição e a integração de matérias-primas renováveis nas emulsões. A emulsão Rhoplex RN-128 da Dow, com 27% de carbono de base biológica, é um exemplo concreto desse direcionamento. A medição e comunicação da pegada de carbono dos componentes – desde a origem das matérias-primas até o produto formulado – está deixando de ser diferencial voluntário para se tornar requisito de entrada em especificações corporativas e de edificações com certificações ambientais relevantes.

Métricas, certificações e a maturidade ainda em construção 

Por fim, um ponto que a análise dos movimentos de 2026 torna evidente: a indústria de tintas e revestimentos ainda carece de métricas universalmente acordadas para avaliar o que é, de fato, um revestimento sustentável. VOC é uma métrica consolidada, mas captura apenas uma dimensão do impacto ambiental. Pegada de carbono, bioacumulação de ingredientes, durabilidade – que reduz a frequência de reaplicação e, portanto, o impacto total ao longo da vida útil da edificação – e qualidade do ar interior são dimensões igualmente relevantes, mas avaliadas de forma fragmentada e nem sempre comparável entre regiões.

Certificações como Greenguard Gold, Green Seal GS-11 e os requisitos de crédito LEED operam como proxies razoáveis, mas não são universais nem suficientemente detalhadas para capturar todas essas dimensões. Na União Europeia, a revisão dos critérios do EU Ecolabel para tintas e vernizes – cujo relatório técnico final foi publicado em 2026 pela JRC (Joint Research Centre) da Comissão Europeia – é um passo nessa direção de maior precisão e abrangência nos critérios de certificação ambiental de produtos de revestimento.

No Brasil, iniciativas como o Prêmio Paint & Pintura de Inovação e Sustentabilidade estabeleceram critérios formais que incluem a redução de emissões de VOCs, o uso de matérias-primas renováveis e a durabilidade dos produtos como dimensões avaliadas de forma integrada. São movimentos que importam porque constroem a cultura de mensuração que o setor precisa para dar credibilidade consistente ao discurso de sustentabilidade junto a especificadores, compradores corporativos e, eventualmente, reguladores.

O que os desenvolvimentos de 2026 revelam, no conjunto, é que a tecnologia de emulsões está deixando de ser um campo de concessões técnicas para se tornar uma arena de vantagem competitiva real e mensurável. Quem entende isso primeiro – seja fornecedor de matéria-prima, formulador ou fabricante de tintas – estará melhor posicionado para capturar a demanda que regulações, mercados e consumidores estão criando de forma crescente e, cada vez mais claramente, irreversível.

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